sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Marina Colassanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e não ver vista que não sejam as janelas ao redor.
E porque não tem vista logo se
acostuma a não olhar para fora. E porque não olha
para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas,
logo se acostuma a acender mais cedo a luz.
E, à medida que se acostuma, se esquece do sol,
se esquece do ar, esquece da amplidão.

A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque
está na hora. A tomar café correndo porque está
atrasado. A ler jornal no ônibus porque
não pode perder tempo. A comer sanduiche
porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque
já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter
vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e ler sobre
a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos
e que haja números para os mortos. E aceitando os números,
aceita não acreditar nas negociações de paz.
E não aceitando as negociações de paz, aceitar
ler todo dia de guerra, dos números,
da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir
no telefone: "hoje não posso ir".
A sorrir para as pessoas sem receber
um sorriso de volta. A ser ignorado
quando precisa tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que se
deseja e necessita. E a lutar para ganhar com que pagar.
E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar
mais dinheiro, para ter com que pagar nas
filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar nas ruas e ver
cartazes. A abrir as revistas e ler artigos.
A ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema
e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido,
desnorteado, lançado na infindável catarata
dos produtos.

A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de
ar condicionado e ao cheiro de cigarros.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam à luz natural.
As bactérias de água potável. À contaminação da água
do mar. À morte lenta dos rios. Se acostuma a não
ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada,
a não colher fruta no pé, a não
ter sequer uma planta por perto.

A gente se acostuma a coisas demais para
não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber,
vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali,
uma revolta lá. Se o cinema está cheio, a gente senta
na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada, a gente molha os pés
e sua o resto do corpo. Se o trabalho está duro,
a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito que fazer,
a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque
tem muito sono atrasado.

A gente se acostuma a não falar na aspereza para
preservar a pele. Se acostuma para evitar sangramentos,
para esquivar-se da faca e da baioneta,
para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto
acostumar, se perde de si mesma.

Fonte: Recebido pelo Grupo Jardim dos Girassóis

2 comentários:

M. Sueli Gallacci disse...

Pois é amiga, a gente se acostuma... Vamos ficando cada vez mais com a mente cicatrizada, e o que doia antes, já não dói tanto... O que escadalizava antes, já não escandaliza tanto... E assim o mundo vai criando novas formas, vai tomando um rumo estranho, menos humano e mais individualista.

Parabéns pelo belo texto!

Um bjo Gde.

Claudia disse...

Melancólico esse texto, né?
Mas acredito que sempre que temos a opção de mudar o que não está bom, o que nos faz mal.
bjs,